A pregação deve ser conforme a Revelação
loquitur; não é então questão, para nós, de revelar o que quer que seja, nem de uma revelação que passaria por nós, através de nós.Devemos, e todas as circunstâncias, respeitar o fato de que o próprio Deus se revelou (epifania), e que Ele se revelará (parousia). Tudo o que se passa na pregação – que se situa entre a primeira e a segunda vinda – é a a ação do próprio sujeito divino. A revelação é um círculo fechado em que Deus é o sujeito, o objeto e o termo médio.
Vejamos, em primeiro lugar, o aspecto negativo desta afirmação.
Isto significa: o papel do pregador não servir de mediador. O evento da pregação é Deus
Resultam então como conseqüências práticas:
a) A pregação não pode pretender a transmissão da verdade de Deus.
Ela não pode ter por finalidade provar Deus por uma demonstração intelectual, expondo mais ou menos longamente certas teorias. Não há outra prova de Deus que aquela que o próprio Deus traz. Nós não temos que expor a verdade de Deus sob uma forma estética usando imagens inúteis ou apresentando Jesus Cristo através de efusões sentimentais.
Ela não pode ter por finalidade provar Deus por uma demonstração intelectual, expondo mais ou menos longamente certas teorias. Não há outra prova de Deus que aquela que o próprio Deus traz. Nós não temos que expor a verdade de Deus sob uma forma estética usando imagens inúteis ou apresentando Jesus Cristo através de efusões sentimentais.
Quando Paulo diz aos Gálatas que ele colocou diante de seus olhos Jesus crucificado, ele não faz alusão a discursos nos quais teria usado artifícios estéticos para tocar a imaginação de seus ouvintes. Para ele, descrever Jesus Cristo é anunciar sem floreio. Nós estamos sob o mandamento: "não farás nenhuma imagem, nem semelhança". Desde que Deus deve Ele mesmo dizer Sua verdade, Sua Palavra, é proibido ao pregador imiscuir-se nessa Palavra com sua arte e sua ciência. Deste ponto de vista, a figura de Cristo na arte, o crucifixo, na Igreja, assim como a apresentação de imagens espirituais de Deus, tornam-se problemáticas.Kierkegaard) como uma "doença que leva à morte".
b) O pregador não deve procurar estabelecer a realidade de Deus.
Sua tarefa é construir o Reino de Deus. Ele deve conduzir a uma decisão.
Sua mensagem deve ser autêntica e comunicar alguma coisa viva. Ele deve por a nu a situação do homem e o colocar assim diante de Deus.
Contudo, ele ultrapassa já seus limites desde Deus é concebida que essa confrontação com Deus é concebida (Certamente, esta expressão supõe coisas que estão implícitas na pregação, mas ela concerne à ação de Deus. Que o homem não intervenha no que não é de sua alçada.
Se se pretende que o homem deve se converter, fazer compartilhar sua fé por aquele a quem ele se dirige, isso não deve ser entendido senão nesse sentido: ter consciênciado que se produz por ocasião de seu tetemunho. Crer para o pregador, é o olhar para Cristo de tal forma, que perante a assembléia não dê a entender que ele dispõe de Cristo e do Espírito, e que é ele que tem a iniciativa do que está sendo feito. Deus não é um Deus ocioso: é Ele que é o autor da obra que se realiza. Nós não podemos agir senão em obediência à nossa tarefa, e não como pessoas que se teriam dado a si mesmas seu programa e seu objetivo.
Nossa pregação não é qualitativamente diferente da dos profetas e dos apóstolos que "viram e tocaram", mas ela difere pelo fato de que se produz em um outro momento histórico. Os profetas e os apóstolos se situam no momento da revelação histórica cujo documento é a Escritura.
Nós damos testemunho da Revelação.
Mas se Deus fala servindo-se de nossa palavra, então, na realidade, se cumpre este evento: os profetas e os apóstolos estão aí, mesmo se é um simples pastor que fala. Entretanto, devemos ignorar este papel e não nos engrandecer como profetas; se Cristo se digna fazer-se presente por ocasião da nossa palavra, é precisamente porque há nela um ato do próprio Deus, não de nós. O fato de que as coisas se passam assim, tira das mãos do pregador todas as pretensões a um programa imaginado por ele. Assim, toda iniciativa autônoma tanto para um fim teórico – vir com um tema, um assunto – como para um fim prático – levar os ouvintes a uma determinada atitude – uma tal tentativa não seria outra coisa que um atentado ao que o próprio Deus deseja fazer na pregação. Se o pregador se dá por tarefa expor uma idéia sob uma forma qualquer – mesmo se esta idéia resulta de uma exegese séria e adequada – então não é a Escritura que fala, mas fala-se sobre ela. Para ser positivo, a pregação deve ser uma explicação da Escritura. Eu não tenho que falar "sobre", mas "de", tirando da Escritura o que eu digo. Eu não tenho que dizer, mas que redizer. Para que só Deus fale, nenhum tema, nenhum objetivo tirado de minha própria natureza deve intervir. Talvez eu tivesse que me perguntar se não me deixei influenciar por alguma idéia própria ou se não tive a impressão de chegar a uma unidade que só Deus poderia criar. Como quer que seja, sigamos o movimento particular do texto, detenhamo-nos aí, e não nos coloquemos questões sobre um tema que poderia, ao que nos parece, se desprender do texto.
Fonte: A proclamação do Evangelho - Karl Barth
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