Período da Pré-Reforma
Os judeus do tempo de Jesus davam muita ênfase à unidade de
Deus, e esta ênfase foi trazida para dentro da igreja cristã. O resultado foi
que alguns eliminaram completamente as distinções pessoais da Divindade, e que
outros não fizeram plena justiça à divindade essencial da segunda e da terceira
pessoas da Trindade Santa. Tertuliano foi o primeiro a empregar o termo
“Trindade” e a formular a doutrina, mas a sua formulação foi deficiente, desde
que envolvia uma infundada subordinação do Filho ao Pai. Orígenes foi mais
longe nesta direção, ensinando explicitamente que o Filho é subordinado ao Pai quanto
à essência, e que o Espírito Santo é subordinado até mesmo ao Filho. Ele
desacreditou a divindade essencial destas duas pessoas do Ser Divino e forneceu
um ponto de partida aos arianos, que negavam a divindade do Filho e do espírito
Santo, apresentando o Filho como a primeira criatura do Pai, e o Espírito Santo
como a primeira criatura do Filho. Assim, a consubstancialidade do Filho e do
Espírito Santo com o Pai foi sacrificada, com o fim de preservar a unidade; e,
segundo esse conceito, as três pessoas da Divindade diferem em grau de
dignidade. Os arianos ainda conservaram resquícios da doutrina das três pessoas
da Divindade, mas esta foi inteiramente sacrificada pelo monarquianismo, em
parte no interesse da unidade de Deus e em parte para manter a divindade do
Filho. O monarquianismo dinâmico via em Jesus apenas homem e no espírito Santo
uma influencia divina, enquanto que o monarquianismo modalista considerava o
Pai, o Filho e o Espírito Santo meramente como três modos de manifestação
assumidos sucessivamente pela Divindade. Por outro lado, também houve alguns
que a tal ponto perderam de vista a unidade de Deus, que acabaram no triteísmo.
Alguns dos monofisistas mais recentes, como João Ascunages e João Philopono,
caíram neste erro. Durante a Idade Média, o nominalista Roscelino foi acusado
do mesmo erro. A igreja começou a formular a sua doutrina da Trindade no século
quarto. O Concílio de Nicéia (325 A.D.) declarou que o Filho é co-essencial com
o Pai, enquanto que o Concílio de Constantinopla (381 A.D.) afirmou a divindade
do Espírito, embora não com a mesma precisão. Quanto à interrelação dos três,
foi oficialmente declarado que o Filho é gerado pelo Pai, e que o Espírito
procede do Pai e do Filho. No Oriente, a doutrina da Trindade encontrou a sua
proposição mais completa na obra de João de Damasco, e no Ocidente, na grande
obra de Agostinho, De Trinitate.
A primeira ainda retém um elemento de
subordinação, inteiramente eliminado pela segunda.
Período da Pós-Reforma
Depois da Reforma não temos maior desenvolvimento da doutrina
da Trindade, mas o que encontramos repetidamente são algumas das errôneas
formulações antigas. Os arminianos, Episcópio, Curceleu e Limborgh reavivaram a
doutrina da subordinação, outra vez, ao que parece, principalmente para
defender a unidade da Trindade. Eles atribuíram ao Pai uma certa preeminência
sobre as outras pessoas – em ordem, dignidade e poder. Posição um tanto
parecida foi tomada por Samuel Clarke, na Inglaterra, e pelo teólogo luterano
Kahnis. Outros seguiram o caminho indicado por Sabélio, ensinando uma espécie
de modalismo, como, por exemplo, Emanuel Swedenborg, que sustentava que o
eterno Deus-homem fez-se carne no Filho, e agia através do Espírito Santo;
Hegel, que fala do Pai como Deus em Si, do Filho como Deus se objetivando, e do
Espírito como Deus retornando a Si mesmo; e Schleiermacher, que considera as
três pessoas simplesmente como três aspectos de Deus: o Pai é Deus como a
subjacente unidade de todas as coisas, o Filho é Deus como passando a uma
personalidade consciente no homem, e o Espírito Santo é Deus vivendo ma igreja.
Os socinianos da época da reforma seguiam as linhas arianas, mas foram além de
Ário, pois para eles Cristo era simples homem e o Espírito Santo apenas um
poder ou influencia. Eles foram os precursores dos unitários e também dos
teólogos modernistas, que falam de Jesus como um mestre divino e identificam o
Espírito Santo com o Deus imanente. Finalmente, também houve alguns que, como
consideravam ininteligível a afirmação da doutrina de uma Trindade ontológica,
queriam livrar-se dela e se satisfizeram com a doutrina de uma Trindade
econômica, uma Trindade como se vê revelada na obra de redenção e na
experiência humana. Exemplos de defensores desta idéia são Moses Stuart, W. L.
Alexander e W. A. Brown. Durante um considerável período de tempo, declinou o
interesse pela doutrina da Trindade, e a discussão teológica centralizou-se
mais particularmente na personalidade de Deus. Brunner e Barth chamaram de novo
a atenção para a sua importância. Este último a coloca em primeiro plano,
discutindo-a em conexão com a doutrina da revelação, e lhe dedica 220 páginas
da sua Dogmática. Materialmente, ele deriva da Escritura a doutrina, mas formal
e logicamente, acha que ela está envolvida na simples sentença, “Deus fala”.
Ele é Revelador (Pai), Revelação (Filho) e Revelatura* (Espírito
Santo). Ele se revela, é a Revelação e é também o conteúdo da Revelação. Deus e
Sua revelação se identificam. Em Sua revelação Ele continua sendo Deus,
absolutamente livre e soberano. Esta idéia de Barth não é uma espécie de
sabelianismo, pois ele reconhece três pessoas na Divindade. Além disso, ele não
admite nenhuma subordinação. Diz ele: “Assim, ao mesmo Deus que, em unidade
incólume, é Revelador, Revelação e Revelatura, também se atribui, em Sua
variedade incólume, precisamente este modo tríplice de existência”.
Teologia Sistemática - Louis Berkhof
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