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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Verdades que não exigem prova


Essas são verdades a priori da razão e verdades dos sentidos; ou seja, são verdades que não exigem prova porque são intuídas ou observadas direta­mente por uma dessas faculdades.
As verdades a priori possuem os seguintes atributos.
(1) São verdades absolutas ou necessárias no sentido de que a razão afirme que é preciso que sejam verdadeiras. Cada efeito tem uma causa adequada. O espaço deve existir. E impossível que não exista, mesmo que qualquer outra coisa exista ou não. O tempo deve existir, haja ou não eventos que se sucedam no tempo. Assim, a necessidade é um atributo dessa classe.
(2) A universalidade é um atributo de uma verdade primeira. Ou seja, as verdades dessa classe não comportam exceção. Todo efeito deve ter uma cau­sa; não pode haver efeito sem uma causa.
(3) As verdades primeiras são verdades de conhecimento necessário e universal. Ou seja, não são meramente cognoscíveis, mas conhecidas de todos os agen­tes morais por uma lei necessária de seu intelecto.
O espaço e o tempo existem e devem existir; que cada efeito possui e deve possuir uma causa, e verdades desse tipo são conhecidas universalmente e pressupostas por todos os agentes morais, quer os termos em que são decla­radas tenham sido ouvidas por eles, quer não. Esta é a característica que dis­tingue as verdades primeiras das outras, meramente manifestas, das quais logo falaremos.
(4) As verdades primeiras são, é claro, manifestas. Ou seja, são percebidas de maneira universal e direta à luz de evidências próprias.
(5) As verdades primeiras são de razão pura e, é claro, verdades de conhe­cimento certo. São conhecidas universalmente com tal certeza que é impos­sível algum agente moral negar, esquecer ou desconsiderá-las na prática. Ainda que possam ser negadas em teoria, são sempre e necessariamente reconhecidas na prática. Nenhum agente moral pode, por exemplo, em hi­pótese alguma, negar ou esquecer ou desconsiderar na prática as verdades primeiras de que o tempo e o espaço existem e devem existir; que cada efei­to deve ter uma causa.
Deve-se, portanto, lembrar sempre que as verdades primeiras são pressu­postas e conhecidas universalmente, e em todos os nossos ensinos e em todas as nossas indagações devemos tomar por certas as verdades primeiras. E ab­surdo tentar prová-las, em razão de necessariamente pressupô-las como base e condição de todo raciocínio.
A mente chega a um conhecimento dessas verdades pela observação dire­ta e necessária delas, preenchida a condição de primeiro perceber a condição lógica delas. A mente percebe ou atinge a concepção de um efeito. Com essa concepção conclui instantaneamente, quer pense quer não na conclusão, que esse efeito teve, e que cada efeito deve ter, uma causa.
A mente percebe o corpo ou tem noção dele. Essa concepção desenvolve necessariamente a verdade primeira, o espaço existe e deve existir.
A mente observa ou concebe a sucessão; e essa observação ou concepção desenvolve necessariamente a verdade primeira: o tempo existe e deve existir.
A medida que prosseguirmos vamos notar várias verdades que perten­cem a essa classe, algumas das quais, em teoria, têm sido negadas. No entan­to, em seus julgamentos práticos, todos os homens as têm aceitado e dado profundas evidências do fato de as conhecerem, tanto quanto têm conheci­mento da existência deles próprios.
Suponham, por exemplo, que a lei da causalidade não fosse, jamais, em tempo algum, objeto de ponderação e atenção distinta. Suponham que a proposição, em palavras, "todo efeito deve ter uma causa", jamais estivesse em mente ou que tal proposição devesse ser negada. Ainda assim o conheci­mento permanece ali, em forma de conhecimento absoluto, uma pressupo­sição necessária, uma afirmação a priori, e a mente possui tamanha convicção dela que é totalmente incapaz de desconsiderar, esquecer ou negá-la na prática. Todas as mentes a tem por conhecimento certo muito antes de con­seguir compreender a linguagem em que é expressa, e nenhuma declaração ou evidência, qualquer que seja, pode dar a elas convicção maior que a obti­da primeiro pela necessidade. Isso se aplica a todas as verdades dessa clas­se. Elas são sempre e necessariamente aceitas por todos os agentes morais, quer haja um pensamento distinto, quer não. E a maior parte dessa classe de verdades é aceita, sem que sejam com freqüência ou, pelo menos, em geral, objeto de ponderação ou atenção direta. A mente as pressupõe sem uma consciência distinta da pressuposição. Por exemplo, agimos a cada momen­to e julgamos, raciocinamos e acreditamos na pressuposição de que cada efeito deve ter uma causa; ainda assim não temos consciência de ponderar acerca dessa verdade nem de pressupô-la, até que algo nos chame a atenção para ela.
Verdades primeiras da razão, portanto, que fique bem destacado, são sem­pre e necessariamente aceitas, ainda que possa ser rara a ponderação acerca delas. Elas são de conhecimento universal antes de se compreenderem as pa­lavras pelas quais são expressas; e embora possam ocorrer de jamais serem expressas numa proposição formal, ainda assim a mente possui um conheci­mento certo delas tanto quanto possui da existência dela própria.
Todo raciocínio desenvolve-se na pressuposição dessas verdades. Preci­sa fazê-lo necessariamente. É absurdo tentar provar verdades primeiras para um agente moral, pois, sendo um agente moral, já deve conhecê-las de ma­neira absoluta e, caso contrário, não há meio pelo qual se consiga colocá-lo em posse delas, exceto pela apresentação da condição cronológica do de­senvolvimento delas à sua percepção e em hipótese alguma seria necessário mais alguma coisa, pois com a ocorrência dessa percepção, segue-se a pres­suposição ou o desenvolvimento, por uma lei de necessidade absoluta e universal. E até essas verdades serem de fato desenvolvidas, nenhum ser pode ser um agente moral.
Não se pode discutir com alguém que questione as primeiras verdades da razão e exija comprovação delas. Toda argumentação deve, pela natureza da mente e pelas leis do raciocínio, considerar certas e aceitas as verdades pri­meiras da razão e como condição a priori de toda dedução e demonstração lógica. Algumas delas precisam ser consideradas verdades, de maneira direta ou indireta, em cada silogismo e em cada demonstração.
Em todas as nossas investigações futuras, teremos abundantes ocasiões para aplicar e ilustrar o que se disse agora acerca das verdades primeiras da razão. Se, em algum estágio de nosso progresso, lançarmos luz sobre uma verdade dessa classe, tenha-se em mente que a natureza da verdade é a preclusão, ou, como expressariam os advogados, a interdição de toda controvérsia.
Negar a realidade dessa classe de verdades é negar a validade de nosso mais perfeito conhecimento. A única dúvida a se elucidar é: a verdade em questão pertence a essa classe? Há muitas verdades que os homens, todos os homens, com certeza conhecem, acerca dos quais raramente pensam, mas que, em teoria, são persistentes em negar.

2. A segunda classe de verdades que não exigem prova são verdades mani­festas, que possuem os atributos de necessidade e universalidade. Dessas verda­des, destaco:
(1) Elas, como as verdades primeiras, são confirmadas pela razão pura e não pelo entendimento ou pelos sentidos.
(2) São confirmadas, como as verdades primeiras, a priori; ou seja, são per­cebidas ou intuídas diretamente e não se chega a elas por evidências ou indução.
(3) São verdades de afirmação universal e necessária, quando expressas de maneira que sejam compreendidas. Por uma lei da razão, todos os homens sãos devem aceitar e confirmá-las à luz de evidências próprias, sempre que se as compreende.
Essa classe, ainda que manifesta quando apresentada à mente, não é, como as verdades primeiras, universal e necessariamente conhecida de todos os agentes morais. Os axiomas matemáticos e os princípios primeiros, as bases e princípios a priori de toda a ciência, pertencem a essa classe.
(4)  São, como as verdades primeiras, universais no sentido de não haver exceção a elas.
(5) São verdades necessárias. Ou seja, a razão afirma, não só que são verda­deiras, mas que precisam ser verdadeiras; que essas verdades não podem deixar de ser. O abstrato, o infinito pertencem a essa classe.
Para compelir outras mentes a aceitar essa classe de verdades, só precisa­mos elaborar uma declaração tão perspicaz para elas, que possam ser perce­bidas e compreendidas com clareza. Feito isso, todas as mentes sãs as confir­mam irresistivelmente, quer o coração seja, quer não honesto o bastante para admitir a convicção.

3. Uma terceira classe de verdades que não exigem prova são verdades de intuição racional, mas não possuem os atributos de universalidade e necessidade.
Nossa existência, personalidade, identidade pessoal, etc, pertencem a essa classe. Essas verdades são intuídas pela razão, são manifestas e certas, como tais, na consciência; são conhecidas da própria pessoa, sem provas, e não se pode duvidar delas. Elas são primeiro desenvolvidas pela sensação, mas não inferidas dela. Suponham uma sensação a ser percebida pelos sentidos; tudo o que se poderia inferir logicamente disso é que existe algum recipiente dessa sensação, mas que eu existo e sou o recipiente dessa sensação, não surge logicamente. A sensação primeiro desperta a mente à consciência do eu; ou seja, uma sensação de algum tipo primeiro desperta a atenção da mente para os fatos da própria existência dela e da identidade pessoal. Essas verdades são percebidas e confirmadas diretamente. A mente não diz, sinto, ou penso, logo existo, pois isso é um mero sofisma; isso é pressupor a existência do eu como o recipiente do sentimento e depois inferir a existência do eu a partir do sentimento ou sensação.

4. Uma quarta classe de verdades que não exigem prova são as sensações. Já se observou que todas as sensações dadas pela consciência são manifestas para quem as sente. Se atribuo ou não minhas sensações à verdadeira causa delas é possível discutir, mas não se pode duvidar que a sensação é real. O testemunho dos sentidos é válido quanto ao que eles contemplam ou intuem de forma direta, ou seja, quanto à realidade da sensação. O julgamento pode enganar-se, atribuindo a sensação a uma causa errada.
Mas não devo prosseguir com esse discurso; meu objetivo não é entrar em muitos detalhes em distinções metafísicas sutis, nem, de maneira alguma, es­gotar o assunto desta aula, mas só fixar a atenção nas distinções em que ve­nho insistindo com o propósito de evitar todas as discussões irrelevantes e absurdas acerca da validade das verdades primeiras e manifestas. Devo pres­supor que vocês possuem algum conhecimento de psicologia e filosofia men­tal, e deixo a seu critério um exame mais completo e extenso do assunto só insinuado nesta preleção.
O suficiente, creio, foi dito a fim de preparar a mente de vocês para a ins­trução dos grandes e fundamentais axiomas que se colocam no fundamento de todas as nossas idéias de moralidade e religião. Nossa próxima aula apre­sentará a natureza e os atributos da lei moral. Prosseguiremos à luz das afir­mações a priori da razão, ao postular sua natureza e atributos. Tendo chegado a um terreno firme quanto a esses pontos, devemos ser naturalmente condu­zidos pela razão e pela revelação a nossas conclusões últimas.

Fonte: Teologia Sistemática - Charles Finney

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