Huss
em conflito com o Papa
No ano de 1411 o papa de Roma, João XXIII [depois deposto|. homem de vida dissoluta e hábitos guerreiros, proclamou uma cruzada contra Ladislau, rei de Nápoles, e ofereceu as costumadas indulgências a todos aqueles que se reunissem ao exército papal. Huss ficou justamente indignado por ver a cruz de Cristo degradada para fins tão anticristãos, e pregou contra a cruzada. O povo, encantado pela sua eloqüência, recusou atender aos missionários do papa, e muitos interrompiam as suas arengas com exclamações encolerizadas. Esses representantes papais não estavam porém habituados a tal tratamento, e não era natural que se submetessem em silêncio. Contudo, ferir o chefe do movimento era uma medida bastante perigosa e intempestiva, e também não era prudente, no estado de agitação em que se achava o povo; não deram qualquer passo para a sua própria defesa. Mas prenderam em segredo três dos chefes, que foram lançados na prisão por ordem do senado, e logo executados secretamente. Mas o sangue dos assassinados foi visto correr pelas grades da prisão, e assim a morte deles tornou-se pública para um levantamento geral, e o povo precipitou-se em massa contra a Câmara Municipal, tomando-a de assalto. Entrando na prisão, apoderaram-se dos corpos decapitados das vítimas e levaram-nos a um lugar de sepultura, dando-lhes honras de mártires. No entanto, Huss, prevendo as conseqüências que lhe podiam acontecer por este ato ousado e ilegal do povo, retirou-se da cidade e continuou as suas pregações em sítios onde estivesse mais seguro. Foi citado pelo papa para comparecer perante o tribunal do Vaticano, mas não fez caso, sendo, Por esse motivo, excomungado. Apesar disso continuou Pregando do mesmo modo, aumentando diariamente o número dos seus convertidos e adeptos.
Huss
citado para comparecer em constância
No
entanto, foi convocado um concilio de prelados e outros em Constância, cidade
imperial nos Alpes, do lado da Alemanha, com o fim de desfazer o grande cisma
que existia, e suprimir as heresias de Wycliff, e Huss foi citado a comparecer
perante ele. Podíamos encher páginas contra os horrorosos segredos e as
blasfêmias públicas dos membros deste concilio, mas esses pormenores seriam revoltantes;
apenas nos referiremos a eles por dizerem respeito a João Huss, e o pérfido
tratamento que deram a este homem verdadeiramente nobre.
Quando o
reformador boêmio recebeu a citação para se apresentar em Constância, não
hesitou em obedecer. Não tinha aparecido em Roma, por conhecer a deslealdade do
papa, mas com a assembléia de Constância o caso era diferente. Os prelados,
segundo ele pensava, eram os augustos representantes daquela igreja verdadeira
a que ele pertencia, e ele sabia que um dos fins para que o concilio fora
convocado era idêntico àquele que muitas vezes estava mais no seu coração
quando pregava. Ainda assim, apesar da confiança que tinha nos prelados,
entendeu que um salvo-conduto do imperador alemão, Sigismundo, podia protegê-lo,
e por isso procurou alcançá-lo. Neste salvo-conduto o imperador ordenava que o
deixassem viajar livremente, e, munido desse documento, o reformador partiu
na sua jornada.
Prisão
de Huss
Agora
notemos a perfídia de Roma: Assim que o reformador pôs os pés em Constância
foi logo agarrado e lançado na prisão, sendo acusado de heresia. O concilio
sabia perfeitamente que ele tinha um salvo-conduto, mas esta dificuldade foi
logo resolvida, publicaram um decreto dizendo que não se devia guardar palavra
com hereges. O povo ficou espantado quando soube da prisão de Huss, e os seus
clamores indignados chegaram da Boêmia aos ouvidos do imperador. Ele ainda
chegara a Constância, e ao princípio parecia disposto a favor do povo em
condenar a traição do concilio, chegou até a falar em abrir à força a prisão em
que o reformador estava encerrado, mas quando chegou à cidade, os argumentos
dos padres venceram seu bom critério, e deixou-os fazer ao prisioneiro o que
queriam.
A
masmorra em que Huss tinha sido encerrado era úmida e imunda, e o alimento
pouco, e não era saudável. Esperavam por este tratamento diminuir-lhe a força,
e poderem fazer dele o que quisessem. Tais esforços tiveram tão bom resultado
que o reformador ficou gravemente doente.
Começo
do julgamento de Huss
No começo
de junho (1415) e antes de estar completamente restabelecido, começou o seu
julgamento público, mas apesar de estar tão fraco, foi-lhe proibido ter um advogado,
porque, diziam seus inimigos, um herege não podia ter defensor. Houve duas
acusações contra ele; a primeira de crer nas doutrinas de Wycliff, a segunda,
de estar "infectado com a lepra dos valdenses". Quando foi chamado
para responder pela primeira acusação apelou para a autoridade das Sagradas
Escrituras, mas a sua voz foi imediatamente abafada por um tumulto de escárnio
e zombaria. Era pois impossível tentar qualquer defesa em tais circunstâncias,
e quando lhe apresentaram o segundo ponto, ficou silencioso. Isto mesmo
condenou-o, visto que seu silêncio foi tomado como uma tácita confissão da sua
culpa. Por fim a excitação tornou-se tão grande que foi impossível continuar o
julgamento, e a assembléia retirou-se.
No
segundo dia apareceu o imperador em pessoa para manter a ordem, e desta vez
parece que tudo correu com muito mais sossego, apesar de os prelados não o
poderem conservar até o fim. Quando, no decurso do julgamento, Huss concordou
que tinha dito que Wycliff era um verdadeiro crente, e que a sua alma estava
agora no Céu, e que não podia desejar maior salvação para a sua própria alma do
que a que estava gozando a alma de Wycliff, os "santos" padres não
puderam conter uma gargalhada. No terceiro dia concluiu-se o julgamento, e Huss
foi de novo mandado para a prisão enquanto se lavrava a sentença. Durante todo
o julgamento parece que houve um amigo que se pôs ao seu lado de uma maneira
própria duma grande afeição; este amigo foi um cavaleiro boêmio chamado Chulm.
Em todos os dias do julgamento esteve sempre com ele, e acompanhou-o durante
todo o seu penoso e aborrecido cativeiro; e tudo isto com grande risco para si
próprio. "Meu querido mestre", disse ele depois de passar o terceiro
dia de julgamento: "eu sou um ignorante, e portanto incompetente para dar
conselhos a um homem de tanto saber como o senhor. Contudo, se está intimamente
convencido de alguns desses erros que lhe atribuíram publicamente, peço-lhe
muito encarecidamente que não se envergonhe de se retratar; mas se, pelo
contrário, está convencido da sua inocência, não quero de modo algum aconselhá-lo
a dizer seja o que for contra a sua consciência, antes quero exortá-lo a
suportar qualquer espécie de tortura a renunciar a qualquer coisa que considere
como verdade'". Huss ficou profundamente comovido pelo sincero e bondoso
conselho do seu amigo, e disse-lhe com as lágrimas nos olhos que Deus bem sabia
como ele de boa vontade se retrataria, debaixo do juramento, de qualquer
exposição que tivesse feito contrária às Escrituras Sagradas. Decorreu um mês,
e parece que durante esse tempo o cavaleiro esteve sempre com ele, provando,
assim, que era um fiel discípulo e um verdadeiro amigo.
Fim
do julgamento de Huss
No dia 6
de julho de 1415 ele compareceu pela última vez perante o concilio, e ouviu
então a sua sentença. A sessão teve lugar na catedral, e Huss esteve no
pórtico enquanto se celebrava a missa, por isso que a um herege não podia ser
permitida a entrada na igreja durante a cerimônia. O bispo de Lodi pregou o
sermão e escolheu para seu tema este texto: "Para que o corpo do pecado
seja desfeito" (Rm 6.6). As suas observações foram uma furiosa exposição
contra as heresias de Huss. Os artigos de acusação foram então lidos, e a sentença
pronunciada. Durante a leitura dos artigos Huss fez várias tentativas para
falar, mas sempre em vão; e quando depois disso ele ofereceu uma oração a Deus
a favor dos seus inimigos, pedindo-lhe que lhes perdoasse as suas injustiças,
as suas palavras foram recebidas com escárnio. O mártir, forte na sua
integridade, ergueu as mãos, e exclamou: "Eis aqui, bendito Salvador, como
o concilio condena como erro o que Tu tens prescrito e feito, quando, dominado
pelos inimigos, entregaste a tua causa a Deus teu Pai, mostrando-nos por este
meio que quando estamos oprimidos podemos recorrer à justiça de Deus". O
fervor da sua eloqüência tinha chamado a atenção dos seus inimigos, e durante
as poucas observações que ainda fez, guardaram um silêncio próprio de quem não
se sente à vontade. Apenas Sigismundo parecia estar tranqüilo, mas a sua
tranqüilidade durou pouco. Huss, desviando a vista dos prelados e fixando os
olhos com firmeza no imperador, disse com voz clara e vibrante: "Vim a
este conflito confiando na boa fé do imperador". Um vivo rubor coloriu
então as faces desse homem, e Huss não disse mais uma palavra.
Foram-lhe
em seguida arrancadas as vestes sacerdo-tais, e puseram-lhe na cabeça uma mitra
de papel onde se viam pintados três demônios. O cálix sacerdotal, que lhe tinha
sido colocado nas mãos, foi-lhe tirado com estas palavras: "Maldito
Judas, que, tendo abandonado o conselho da paz, entraste no dos judeus,
arrancamos-te das mãos este santo cálix onde está o sangue de Cristo".
"Pelo contrário", disse Huss numa voz forte, "confio que pela
graça de Deus ainda hoje hei de beber dele no seu reino". Os bispos
retorquiram então: "Nós entregamos a tua alma aos demônios do
Inferno", ao que Huss respondeu: "E eu entrego o meu espírito nas
tuas mãos, ó Senhor Jesus Cristo; a ti entrego a alma que tu salvaste!"
Morte
de João Huss
Fonte: História do Cristianismo: Dos apóstolos do Senhor Jesus ao século XX
A.
Knight & W. Anglin
Muito bom mano!!
ResponderExcluirQue Deus continue te abençoando!
grande abraço!