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domingo, 27 de novembro de 2011

A História de João Huss

Huss em conflito com o Papa

No ano de 1411 o papa de Roma, João XXIII [depois deposto|. homem de vida dissoluta e hábitos guerreiros, proclamou uma cruzada contra Ladislau, rei de Nápoles, e ofereceu as costumadas indulgências a todos aqueles que se reunissem ao exército papal. Huss ficou justamente in­dignado por ver a cruz de Cristo degradada para fins tão anticristãos, e pregou contra a cruzada. O povo, encantado pela sua eloqüência, recusou atender aos missionários do papa, e muitos interrompiam as suas arengas com excla­mações encolerizadas. Esses representantes papais não es­tavam porém habituados a tal tratamento, e não era natu­ral que se submetessem em silêncio. Contudo, ferir o chefe do movimento era uma medida bastante perigosa e intem­pestiva, e também não era prudente, no estado de agitação em que se achava o povo; não deram qualquer passo para a sua própria defesa. Mas prenderam em segredo três dos chefes, que foram lançados na prisão por ordem do senado, e logo executados secretamente. Mas o sangue dos assassi­nados foi visto correr pelas grades da prisão, e assim a mor­te deles tornou-se pública para um levantamento geral, e o povo precipitou-se em massa contra a Câmara Municipal, tomando-a de assalto. Entrando na prisão, apoderaram-se dos corpos decapitados das vítimas e levaram-nos a um lu­gar de sepultura, dando-lhes honras de mártires. No en­tanto, Huss, prevendo as conseqüências que lhe podiam acontecer por este ato ousado e ilegal do povo, retirou-se da cidade e continuou as suas pregações em sítios onde es­tivesse mais seguro. Foi citado pelo papa para comparecer perante o tribunal do Vaticano, mas não fez caso, sendo, Por esse motivo, excomungado. Apesar disso continuou Pregando do mesmo modo, aumentando diariamente o nú­mero dos seus convertidos e adeptos. 

Huss citado para comparecer em constân­cia

No entanto, foi convocado um concilio de prelados e outros em Constância, cidade imperial nos Alpes, do lado da Alemanha, com o fim de desfazer o grande cisma que existia, e suprimir as heresias de Wycliff, e Huss foi citado a comparecer perante ele. Podíamos encher páginas contra os horrorosos segredos e as blasfêmias públicas dos membros deste concilio, mas esses pormenores seriam re­voltantes; apenas nos referiremos a eles por dizerem res­peito a João Huss, e o pérfido tratamento que deram a este homem verdadeiramente nobre.
Quando o reformador boêmio recebeu a citação para se apresentar em Constância, não hesitou em obedecer. Não tinha aparecido em Roma, por conhecer a deslealdade do papa, mas com a assembléia de Constância o caso era dife­rente. Os prelados, segundo ele pensava, eram os augustos representantes daquela igreja verdadeira a que ele perten­cia, e ele sabia que um dos fins para que o concilio fora convocado era idêntico àquele que muitas vezes estava mais no seu coração quando pregava. Ainda assim, apesar da confiança que tinha nos prelados, entendeu que um sal­vo-conduto do imperador alemão, Sigismundo, podia pro­tegê-lo, e por isso procurou alcançá-lo. Neste salvo-conduto o imperador ordenava que o deixassem viajar li­vremente, e, munido desse documento, o reformador par­tiu na sua jornada.

Prisão de Huss

Agora notemos a perfídia de Roma: Assim que o refor­mador pôs os pés em Constância foi logo agarrado e lança­do na prisão, sendo acusado de heresia. O concilio sabia perfeitamente que ele tinha um salvo-conduto, mas esta dificuldade foi logo resolvida, publicaram um decreto di­zendo que não se devia guardar palavra com hereges. O povo ficou espantado quando soube da prisão de Huss, e os seus clamores indignados chegaram da Boêmia aos ouvi­dos do imperador. Ele ainda chegara a Constância, e ao princípio parecia disposto a favor do povo em condenar a traição do concilio, chegou até a falar em abrir à força a prisão em que o reformador estava encerrado, mas quando chegou à cidade, os argumentos dos padres venceram seu bom critério, e deixou-os fazer ao prisioneiro o que que­riam.
A masmorra em que Huss tinha sido encerrado era úmida e imunda, e o alimento pouco, e não era saudável. Esperavam por este tratamento diminuir-lhe a força, e po­derem fazer dele o que quisessem. Tais esforços tiveram tão bom resultado que o reformador ficou gravemente doente.

Começo do julgamento de Huss

No começo de junho (1415) e antes de estar completa­mente restabelecido, começou o seu julgamento público, mas apesar de estar tão fraco, foi-lhe proibido ter um advo­gado, porque, diziam seus inimigos, um herege não podia ter defensor. Houve duas acusações contra ele; a primeira de crer nas doutrinas de Wycliff, a segunda, de estar "in­fectado com a lepra dos valdenses". Quando foi chamado para responder pela primeira acusação apelou para a auto­ridade das Sagradas Escrituras, mas a sua voz foi imedia­tamente abafada por um tumulto de escárnio e zombaria. Era pois impossível tentar qualquer defesa em tais cir­cunstâncias, e quando lhe apresentaram o segundo ponto, ficou silencioso. Isto mesmo condenou-o, visto que seu si­lêncio foi tomado como uma tácita confissão da sua culpa. Por fim a excitação tornou-se tão grande que foi impossível continuar o julgamento, e a assembléia retirou-se.
No segundo dia apareceu o imperador em pessoa para manter a ordem, e desta vez parece que tudo correu com muito mais sossego, apesar de os prelados não o poderem conservar até o fim. Quando, no decurso do julgamento, Huss concordou que tinha dito que Wycliff era um verda­deiro crente, e que a sua alma estava agora no Céu, e que não podia desejar maior salvação para a sua própria alma do que a que estava gozando a alma de Wycliff, os "san­tos" padres não puderam conter uma gargalhada. No terceiro dia concluiu-se o julgamento, e Huss foi de novo mandado para a prisão enquanto se lavrava a sentença. Durante todo o julgamento parece que houve um amigo que se pôs ao seu lado de uma maneira própria duma gran­de afeição; este amigo foi um cavaleiro boêmio chamado Chulm. Em todos os dias do julgamento esteve sempre com ele, e acompanhou-o durante todo o seu penoso e aborrecido cativeiro; e tudo isto com grande risco para si próprio. "Meu querido mestre", disse ele depois de passar o terceiro dia de julgamento: "eu sou um ignorante, e por­tanto incompetente para dar conselhos a um homem de tanto saber como o senhor. Contudo, se está intimamente convencido de alguns desses erros que lhe atribuíram publicamente, peço-lhe muito encarecidamente que não se envergonhe de se retratar; mas se, pelo contrário, está con­vencido da sua inocência, não quero de modo algum acon­selhá-lo a dizer seja o que for contra a sua consciência, an­tes quero exortá-lo a suportar qualquer espécie de tortura a renunciar a qualquer coisa que considere como verdade'". Huss ficou profundamente comovido pelo sincero e bondo­so conselho do seu amigo, e disse-lhe com as lágrimas nos olhos que Deus bem sabia como ele de boa vontade se re­trataria, debaixo do juramento, de qualquer exposição que tivesse feito contrária às Escrituras Sagradas. Decorreu um mês, e parece que durante esse tempo o cavaleiro este­ve sempre com ele, provando, assim, que era um fiel discí­pulo e um verdadeiro amigo.

Fim do julgamento de Huss

No dia 6 de julho de 1415 ele compareceu pela última vez perante o concilio, e ouviu então a sua sentença. A ses­são teve lugar na catedral, e Huss esteve no pórtico en­quanto se celebrava a missa, por isso que a um herege não podia ser permitida a entrada na igreja durante a cerimô­nia. O bispo de Lodi pregou o sermão e escolheu para seu tema este texto: "Para que o corpo do pecado seja desfei­to" (Rm 6.6). As suas observações foram uma furiosa expo­sição contra as heresias de Huss. Os artigos de acusação fo­ram então lidos, e a sentença pronunciada. Durante a leitura dos artigos Huss fez várias tentativas para falar, mas sempre em vão; e quando depois disso ele ofereceu uma oração a Deus a favor dos seus inimigos, pedindo-lhe que lhes perdoasse as suas injustiças, as suas palavras foram recebidas com escárnio. O mártir, forte na sua integridade, ergueu as mãos, e exclamou: "Eis aqui, bendito Salvador, como o concilio condena como erro o que Tu tens prescrito e feito, quando, dominado pelos inimigos, entregaste a tua causa a Deus teu Pai, mostrando-nos por este meio que quando estamos oprimidos podemos recorrer à justiça de Deus". O fervor da sua eloqüência tinha chamado a aten­ção dos seus inimigos, e durante as poucas observações que ainda fez, guardaram um silêncio próprio de quem não se sente à vontade. Apenas Sigismundo parecia estar tran­qüilo, mas a sua tranqüilidade durou pouco. Huss, des­viando a vista dos prelados e fixando os olhos com firmeza no imperador, disse com voz clara e vibrante: "Vim a este conflito confiando na boa fé do imperador". Um vivo rubor coloriu então as faces desse homem, e Huss não disse mais uma palavra.
Foram-lhe em seguida arrancadas as vestes sacerdo-tais, e puseram-lhe na cabeça uma mitra de papel onde se viam pintados três demônios. O cálix sacerdotal, que lhe tinha sido colocado nas mãos, foi-lhe tirado com estas pa­lavras: "Maldito Judas, que, tendo abandonado o conselho da paz, entraste no dos judeus, arrancamos-te das mãos este santo cálix onde está o sangue de Cristo". "Pelo con­trário", disse Huss numa voz forte, "confio que pela graça de Deus ainda hoje hei de beber dele no seu reino". Os bis­pos retorquiram então: "Nós entregamos a tua alma aos demônios do Inferno", ao que Huss respondeu: "E eu en­trego o meu espírito nas tuas mãos, ó Senhor Jesus Cristo; a ti entrego a alma que tu salvaste!" 

Morte de João Huss

Tendo sido assim privado de um modo tão aviltante do seu cargo sacerdotal, foi entregue ao imperador, o repre­sentante do poder secular: "Pertence-vos o alto cargo", disse-lhe o bispo de Lodi, "de destruir as heresias e cismas, e com especialidade os obstinados hereges". O imperador desempenhou "esse alto cargo" sem demora. O lugar de suplício não era longe, e Huss foi para ali conduzido ime­diatamente sob a guarda do eleitor palatino e oitocentos soldados a cavalo. Quando para ali se encaminhava, o seu rosto brilhava de alegria, e o povo que se apinhava no ca­minho estava admirado das suas piedosas orações. Chega­do ao lugar de execução não lhe foi permitido a palavra ao povo, mas a oração que fez enquanto o estavam amarrando ao poste chegou aos ouvidos de todos: "Senhor Jesus, eu sofro humildemente esta morte cruel por amor de ti, e rogo-te, Senhor, que perdoes aos meus inimigos". No últi­mo momento ainda fizeram uma tentativa para o induzir a assinar uma retratação, mas não o conseguiram: "Tudo o que escrevi e assinei foi com o fim de livrar as almas do po­der do Demônio, e livrá-las da tirania do pecado; e sinto alegria em selar com o meu sangue o que escrevi e assinei". O eleitor, que tinha feito esta última tentativa, afastou-se então do lugar, e largaram fogo à lenha. Mas os sofrimen­tos do mártir acabaram depressa, e enquanto ainda orava a Deus decaiu-lhe a cabeça sobre o peito e sufocou-lhe uma nuvem de fumaça. Assim pois João Huss, que tinha dado uma boa confissão, obteve a coroa do martírio e partiu para estar com Cristo.

Fonte: História do Cristianismo: Dos apóstolos do Senhor Jesus ao século XX
           A. Knight & W. Anglin

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